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Montagem da série na mostra 'Vastas Emoções, Pensamentos Imperfeitos' do 11º Prêmio Diário Contemporâneo com curadoria de Rosely Nakagawa. No Museu do Estado do Pará - MEP.

Um Bonde Chamado Desejo, (2020 - )

Série

Instalação / Fotografia

Impressão de pigmento mineral s/ papel algodão,

Aplicação serigráfica s/ paspatour de papel algodão,

blocos de concreto e 6 luminárias pretas

Nesta série me aproprio de fotografias de casais queer de épocas distintas e significativas do ínicio à meados do século XX, com estas construo ficções e narrativas,, partindo de um cenário que estas histórias entrelaçam uma realidade queer Brasileira e Estado-Unidense compartilhadas a uma esteticidade da cultura dos anos 1950/60. Um periodo de mudanças e transição do moderno para o contemporâneo dentro da literatura, cinema, artes e etc... Atingindo temas políticos e reais do cotidiano e da sociedade, como o gênero e a sexualidade. Através da inserção do texto no paspatour protegendo a fotografia, crio uma possível narrativa ficcional mas que poderia ser real em mundo onde as estruturas machistas e homofóbicas do patriarcado não tivessem sido instauradas. Em um mundo onde o “homem masculinista” e seus maléficios não existissem e tivessem deixado feridas e invisibilizado outras histórias. Essas fotografias são formas de validar a existência e desmitificar discursos como o “Na minha  época não existia essa pouca vergonha” que são atuais mas em seu caráter são tendenciosos e “retrógrados”. Nessa obra questiono o passado, futuro e o nosso  presente. Se essas pequenas histórias fossem de certa forma reais como estariamos hoje? Como o mundo seria? Seria melhor e sem preconceitos?  Teria equidade entre gêneros? Nessa reflexão fica pairado a ideia de desejo, mas a sede de agir e pegar este bonde para que essas histórias um dia acontecessem ou aconteçam. 

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Montagem da série na mostra 'Vastas Emoções, Pensamentos Imperfeitos' do 11º Prêmio Diário Contemporâneo com curadoria de Rosely Nakagawa. No Museu do Estado do Pará - MEP.

As imagens foram achadas na internet e possuem origens diversas, mas em maioria são Estado-Unidenses, a limitação de registro de imagens de casais queer Brasileiras direciona a pesquisa à própria poética do trabalho. Essa dificuldade de registros pode ser pelo acesso as tecnologias e estúdios fotográficos de confiança ou uma moralidade religiosa compartilhada com o Estados Unidos, mas aqui talvez sendo efetiva pois é particular, advinda de uma colonização católica e popular, compartilhando uma noção de própria  “sobrevivência” destes corpos desde as classes mais pobres às altas. Registrar este amor, estava talvez fora da nossa realidade, por mais que não existisse leis civis e crime contra a homossexualidade. Diferente dos Estados Unidos onde esta era enquadrada como sodomia,  e foi crime até 1962. No Brasil existe uma violência “silenciosa” ate hoje, onde outras leis civis eram usadas para contenção destas vivências na sociedade, era utilizados para prisão o ‘Atentado ao pudor’, ‘Obscenidade e Ataque à moral e aos bons costumes’, sendo uma hipocrisia em um país que celebra o carnaval, festejando a liberdade dos corpos heterossexuais e o jogo entre os gêneros. No Brasil pessoas queer quando descobertas ou assumidas para a família, poderiam ser internadas em manicômios ou casas de “repouso”, passando por lobotomias, uma possível “cura gay”. Ou quando não, viviam distantes e reclusos em uma outra cidade onde ninguém os conhecessem, a expresão “foi viver com um amigo” já bastava para compreender o findar daquela história.

Obras inseridas dentro do trabalho "Um bonde chamado desejo".

Vale frizar a importância das artes no queer e na história das diferenças, pois são formas de validar nossa existência junto com  a história do mundo. Desde a artesania grega ilustrando o sexo entre iguais até estas fotografias intímas de casais que pesquisei. A relação entre fotógrafo e retratado nos primórdios da fotografia era uma relação íntima profissional Assim como cada família tinha o seu médico de confiança. Cada pessoa tinha o seu fotógrafo de confiança. E não era qualquer fotográfo que poderia realizar a tarefa de fotografar estes casais e sua íntimidade em um mundo que até certo tempo onde ser o que se é poderia levar a prisão ou ser punido severamente pela sociedade que colonizada e convertida aderiu à diferença, uma ideia de pecado, gerada pelos homens donos da fala e das religiões Judaico-Cristãs que infectaram as leis cívis para abominar e esconder as diferenças, uma história antiga de perseguição mas que se perpetua e se torna tão real até hoje.