Um artista quando jovem monstro,

Duchamp mora dentro de Henrique Montagne


 

“Engendrar o infinito dos monstros”

Michel Foucault

 

Em 1912 Marcel Duchamp pintou uma tela chamada nu descendo a escada nº 2, 105 anos depois em 2017, Henrique Montagne desce as escadas do Casulo Cultural no bairro da Campina em Belém do Pará, Brasil.

 

Duchamp também mora dentro de Henrique foi o que intuí desde aquela noite na Campina quando o jovem artista fez sua performance “I’m Going”, descendo as escadas do Casulo Cultural no fechamento de sua exposição ‘Alguém mora dentro de mim’.

 

Só me toquei depois, que havia escrito o título da referência a Duchamp morar dentro de Henrique e não o havia feito num estado de clara consciência da relação do ato de morar do título da exposição com a ideia do monstro, dentro. Outras referências, lembranças, vieram como o filme Inimigo Meu (Wolfgang Petersen, 1985) aquele em que o extraterrestre e um humano ficam isolados num planeta distante e que o extraterrestre de gênero masculino dá cria a um outro ser, fiz numa associação estranha de um ser dentro de outro, mesmo que não fosse um monstro e depois Foucault e o engendrar o infinito dos monstros, algo que sempre me instigou, a condição de monstruosidade a meu ver necessária na condição de sobrevivência da existência, mas não havia conectado o que estava mais próximo, o título da exposição vinculava a performance “I’m Going” com o ‘Nu descendo a escada’ de Duchamp, unido ao percurso de me aventurar, a tomar o que se constituiu em registro fotográfico do celular, emergiu da densidade historicamente marcada em mim, como a habitar morar desde tenro um Duchamp em mim, desde os idos de minha graduação.

 

E Henrique ainda na graduação de artes visuais, e o modo como a performance se revelou, e sua composição químicopoética, dispararou sobre mim o outro, o crítico, o olho do espectador expectorante, envolvido na trama do artista-performer que ali se jogava rumo a um deslugar possível.

Seu corpo e os olhos vendados a tatear o corrimão de madeira liso onde naquele agora, também habitava em residência artístico afetiva, habitado num tempo apartado deste tempo desta escritura. Naquela morada transeunte aberta peitou/pisou no peito da escada. E de memória em memória o retorno a Duchamp tal um chiste no poema achado perdido nas terras do Rio que se foi, ficou aqui e que os ventos tempestades souberam desenterrar.

 

Henrique fechou os olhos para essa possibilidade embora ninguém julgue que ela não apareça sempre nesse fechar-se para o visível e abrir-se para os rumos diversos e percursos na escuridão e sua massa sonora a bater a bater a bater.

 

E em algum momento num encontro aleatório falei sobre, e acho que comentei sobre as fotos que havia feito naquele dia da performance “I’m Going” na mostra “Alguém mora dentro de mim” e disse haver semelhança da performance com o nu descendo a escada, que me encontrava num estado inconsciente que o processo de criação produz em dados acontecimentos, revela facetas ocultas dos estados perceptivos em ação na psique, estados esses tais que viabilizaram o composto químico bio neural da procura teórica desde o fim da exposição e maturação dos sentidos estéticos advindos daquela noite.

 

N’outro momento aquele em que após tudo terminado, me vi diante da possibilidade quase que instantânea da relação entre a performance e a pintura, logo percebi as cores da fotografia, a escada no qual desce para fora do espaço Casulo Cultural, e as cores da pintura. E me pus a relacionar em ato de pesquisa, em seguida surgiu este texto e fala dita como crítica, neste Possível livro no tempo de seu tempo ou Crítica.

 

Resolvi escrever sobre a relação entre ambas com a vibe de pensar esse registro fotográfico despretensioso e anti-técnico apenas pelo instinto de fotografar o que havia disparado nesta sensibilidade e que por algum motivo me tomou desde um retiniano no acontecimento tal como Duchamp se contrapunha aquela pintura retiniana que ele se referia na época da pintura.

 

Numa densidade em instantes diversos o que toca o lugar desta visada recai sobre o gesto atado no artista os olhos, que retira o mundo real a escada dada então a ele e ao mesmo tempo tirada, pela ausência do visível, mas recolocada pela captação dos outros sentidos alargados no gesto de descer e nesse mesmo instante o aguçar dos outros sentidos, radares a captar as materialidades sonoras em vias de acontecimento, o que deflagrou o acontecimento no movimento que fiz sequer estava planejado ou algo premeditado, mas disparado pelo que via sentia no momento em que este começa a performance tal como as imagens mostram

Um certo retiniano aqui desformulo no que vi em vias de nascedouro num escoamento Henrique vendado retirando o mundo visual que lhe dava base e de certo modo o conforto e segurança, mas a arte não é da ordem da segurança.

 

O que da performance dispara um lugar outro plugado a forjar o desdito popular:

 

a porta da rua

é a serventia da casa

 

O artista desce a escada inteira e sai pela porta para fora da casa. Encontro aqui uma bifurcação nesse ato à pintura de

Duchamp, foi possível no instante do movimento que percorri na ação para o registro transformado naquilo que possivelmente não seria uma alusão a Duchamp diretamente, pois talvez não estivesse na mente do artista, o que se dá desde esta crítica aberta e deveras vezes muda, tremida, desfocada, desobiturada.

 

A dizer um dito de um caminho rumo ao lugar que em vias metáforicas equivaleria um errar, errância, que não estaciona. É errância, corremos cães cadelas canis cadeados atrás do osso da arte da merda da arte pra se fazer ver a cara a coxinha da vez dádiva de dívida das divas, mas repito replico Norval Baitello:

 

“O pensamento sentado

 sobre glúteos, cadeiras e imagens

se caminhar é ir em direção ao desconhecido e, portanto, ir ao encontro do próprio medo, narrar é reviver o sobressalto, o susto e a surpresa depois do suspense. Caminhar e narrar significam manter o suspense”.

Henrique Montagne sobe a travessa Frutuoso Guimarães deixando um Duchamp que pensei aqui, um Casulo, um registro que escapou em si para assim se tornar uma narrativa do artista quando jovem “monstro...” que eu vi o que vi.


Profº Drº Luizan Pinheiro

Belém
2017